quinta-feira, 3 de setembro de 2009

RETRATO DE BRIZOLA

RIO – 1. - “Tenho uma opinião que talvez surpreenda muita gente: embora tenha sido governador do Rio de Janeiro, com prestígio extraordinário, Brizola não conseguiu avançar em determinados setores que o eufemismo chamaria de “novos tempos”.
“Posso dar um exemplo: ele morava no sexto andar de um edifício na Avenida Atlântica, o diretório da campanha foi instalado no primeiro andar, e o estúdio de TV para a preparação do programa eleitoral ficava no segundo andar do mesmo prédio.Isso dá a idéia de como era centralizador”.
“Enquanto Collor, Lula e Covas faziam campanhas modernas, a nossa estava longe disso. Em algumas situações eu ficava com a impressão de que Brizola não dava nenhuma importância a andar atualizado, porque nutria a convicção de que seria um vencedor natural, por antecipação”.
TANCREDO
Fernando Lyra, um dos mais talentosos políticos das ultimas gerações no Brasil, escreveu um livro-depoimento exemplar sobre
sua poderosa presença na política brasileira durante 34 anos, de 1966 a 2000, com um mandato de deputado estadual de Pernambuco, seis de deputado federal, ministro da Justiça de Tancredo no governo Sarney e candidato a vice-presidente da Republica com Leonel Brizola em 1989.
O livro é sobretudo um primoroso testemunho histórico sobre a grandeza e a tragedia de Tancredo Neves : - “Daquilo Que Eu Sei
- Tancredo e a Transição Democratica” (Editora Iluminuras), que infelizmente ficou excessivamente confinado em Recife e não teve a distribuição e repercussão que deveria ter tido no resto do pais.
LYRA
A extrema sensibilidade política de Fernando Lyra levou-o a desenhar e registrar, em apenas tres paginas, um sutil e magistral retrato de Leonel Brizola, que começa no item 1, já acima transcrito, e continua em mais alguns que fixam bem a personalidade dele:
2. - “Nunca consegui levar Brizola à Bahia, na campanha. Até que, ao apagar das luzes, marquei um comício na cidade de Governador Valadares, no interior de Minas Gerais. Brizola assegurou que iria. Junto seguiria conosco Gilberto Gil, que nos apoiava.
“Então fomos, eu e Gilberto Gil para Governador Valadares, esperar Brizola, e já de noite recebi um recado de Curitiba no qual Brizola dizia que não poderia vir ao comício. Claro que a multidão reunida ouviu com muito prazer e alegria Gilberto Gil, mas o meu discurso, substituindo Brizola, foi assistido com uma frieza que doeu”.
PORTO ALEGRE
3. - “Além dessas questões, é preciso dizer que Brizola não gostava de delegar ações aos coordenadores de sua campanha, a não ser circunstancialmente. O fato mais interessante do seu comportamento tão peculiar durante a campanha se deu, ironicamente, na sua cidade”.
“Ele me pediu para inaugurar o seu comitê de campanha em Porto Alegre e não ele. Argumentei que isso poderia ser visto como um descaso com o seu maior eleitorado. A sua ausência era uma evidente desconsideração. Mas ele justificou dizendo-me que não poderia ir porque no mesmo momento estaria aguardando alguns membros do PTB que iriam apoiá-lo transformando a campanha dele numa Frente Trabalhista”.
5. “Quem eram esses companheiros de quem receberia diretamente o apoio enquanto eu estava em Porto Alegre? Gonzaga Mota do Ceará e Roberto Magalhães de Pernambuco”.
COVAS
6. – “Ao terminar o nosso comício, segui para conceder duas entrevistas, uma gravada e outra ao vivo às TVs do Rio Grande. Na saída, uma repórter me perguntou: - “Como pernambucano, o que o senhor acha do apoio de Roberto Magalhães a Mário Covas”?
“Respondi que ela estava equivocada, pois Brizola só não havia comparecido à inauguração do seu comitê de campanha em Porto Alegre porque tinha um encontro com Roberto Magalhães para consolidar o apoio.
- “O senhor é que está equivocado, ela respondeu. Roberto Magalhães foi hoje à casa de Afonso Arinos e lá declarou o seu apoio a Mário Covas e, além disso, aceitou ser o candidato a vice na chapa dele”.
A DERROTA
7. – “Tenho uma verdadeira coleção de histórias assim com Brizola. Não precisaria contar nem metade delas para todos entenderem por que ele perdeu aquelas eleições”.
“E há mais: eu, como candidato a vice-presidente da República, por pressão dos áulicos cariocas de Brizola, não participei de nenhum programa de televisão no guia eleitoral, porque eles argumentavam que quem tinha voto e prestígio era Brizola, consequentemente só ele podia falar”.
“Eu teria muito mais coisas para contar. Brizola era um grande líder, mas não gostava de ouvir.Tinha muitos áulicos e poucos companheiros”.
OS DOIS
Magnífico retrato. O único equivoco do Fernando é imaginar que algum áulico de Brizola, fosse quem fosse, teria força para fazer pressão capaz de vetar a participação dele em um sequer dos programas eleitorais.
O veto era de Brizola. Pessoal e irrecorrivel. Fez isso em todas as campanhas. Era ele, ele e só ele. De seus programas só duas pessoas participavam: ele e Getulio Vargas. Ele aqui embaixo e Getulio lá em cima.
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